Dia 14 de Julho de 2011, 7:50 da manhã, finalmente diante de mim a tão aguardada placa: estava no pico Uhuru,no cume do monte Kilimanjaro, a 5895 metros acima do nível do mar. Estava no topo do África!Na esquerda a encosta coberta pela imensa geleira da encosta do Kilimanjaro, que apesar de agora ter em algumas partes mais de 20 metros de altura, não é nem metade do que foi a 50 anos atrás. Na direita a enorme cratera do vulcão adormecido (sim, adormecido), agora também com raros e esparsos vestígios do que uma vez foi coberto por gelo. No horizonte estavam as duas montanhas que me acompanharam na jornada até o Kibo: de um lado o Meru, de outro o Mawenzi. Tivemos sorte na nossa subida pois não fazia muito frio. O dia amanheceu nublado, mas os raios do sol logo encontraram seus caminhos através das nuvens, aquecendo o nosso corpo e iluminando toda a paisagem. Mas só comecei a perceber tudo isso quando estava descendo. No topo, só havia fôlego para sorrir, emocionar, tirar algumas fotos e tentar guardar na retina o máximo possível desse momento.

A rota

O Kilimanjaro possui ao menos 6 rotas para subida, e 2 para a descida. A rota que eu optei foi a Rongai, em 6 dias. Essa rota começa pelo norte, quase na divisa com o Quênia, no segundo dia faz um desvio para o leste até a base do Mawenze, para finalmente no quarto dia rumar para a base do Kilimanjaro, onde se junta com a rota Marangu para a subida até o topo. Não é permitido descer pela Rongai, então fizemos a descida pela rota Marangu, também conhecida como “rota  coca-cola” por ser a mais popular, ela desce em dois dias pela encosta sul do monte. Escolhi essa rota porque teoricamente (i) é a mais rica em fauna e flora, (ii) é relativamente vazia se comparada a Marangu, Machame e Shira, e (iii) com 6 dias na montanha oferece um tempo confortável para aclimatação.

Nuvens invadindo..

Na prática, e como todo mundo deve ter lido e pensado como eu, a rota estava bem cheia: com mais 4 grupos que encontrávamos nos acampametos no inicio e final de cada dia, somávamos por volta de 35 escaladores. Se contar os porters, cozinheiros, rangers e guias cada acampamento tinha a população de um pequeno povoado, por volta de umas 150 pessoas (para mais). A fauna na rota também deixou a desejar, e as únicas espécies de animais que vi foram homo sapiens americanis e homo sapiens britanikis guiados por tanzanianis.Em relação à flora nos dois primeiros dias passamos por floresta de pinheiros, seguida por uma floresta tropical, para depois uma vegetação mais baixa, e do terceiro dia em diante só víamos vegetação rasteira e deserto.

Na montanha

Não vou detalhar cada dia na montanha como fiz com o Meru por três motivos:: (i) foram 6 das, não tenho tempo (paciência) para me alongar tanto, (ii) vocês não têm tempo (paciência) para ler sobre tudo, e (iii) os dias no Kilimanjaro são basicamente iguais, com alguma mudança na vegetação e na paisagem, mas sem grandes surpresas.

Porters enchendo os galões de água. A água era fervida para tomarmos..

Despertávamos às 6:00, tomávamos café da manhã e partiamos para o próximo ponto de acampamento. Em média elevávamos nossa altitude em 1000metros por dia, com caminhadas de 4 a 6 horas, mas teve dias que fizemos em 9 horas. Nos dias mais curtos fazíamos um “bate-e-volta” a tarde para um ponto mais alto do que o acampamento para melhor aclimatar o corpo. Tudo isso não quer dizer que os dias são monótonos ou entediantes, a sensação é difícil de ser explicada, mas é algo que não se sente muito na correria da cidade.. Quando estava subindo a montanha só pensava no presente. Estava ali, e só ali existia e interagia. Nada do que acontecesse fora da montanha me afetaria enquanto ali estivesse.

Mawenzi Huts.

Viver no presente é um ensinamento antigo, e desde carpe diematé citações de John lennon exaltam essa virtude. Mas na montanha, principalmente no Kilimanjaro, o conceito ganha corpo e vida. É aquela pedra que está no seu caminho, é a água que está na sua mochila que você vai beber, e é a roupa que você tem que você vai usar. Nada mais, nada menos. Alberto Caeiro estilo de vida. Conforme ganhamos altitude esse pensamento mudou um pouco, e a subida até o topo foi fatigante e estressante até o limite. Saímos da Saddle Hut (no Kilimanjaro também tem uma Saddle Huts) à 0 hora. Como disse no começo desse texto, cheguei no topo às 7:40. Sem nenhuma parada maior  do que 5 minutos para evitar que nosso corpo esfriasse, a subida foi extremamente lenta.

Mawenzi (5.190m), outra cratera do Kilimanjaro.

Pela foto ao lado dá para perceber o quão íngreme é a subida, por isso tivemos que fazer incontáveis zig-zags de um lado para o outro da encosta ganhando poucos metros de altitude entre um e outro. O solo de areia não ajuda, e em alguns pontos a cada passo que se dá volta-se dois. Depois de 5 horas nesse vai e vem, começou a dar um desespero. Já estava estourado, minha mochila que continha só minha câmera e uma água era um peso absurdo nas minhas costas, meus ombros doíam muito, e com o breu da noite nublada não tínhamos noção do quanto havíamos subido, se estávamos perto do topo ou não. Na verdade dava para distinguir algumas rochas que pareciam ser o topo, mas a distância era impossível de ser calculada, principalmente porque cada centímetro já era muito a essa altura. Às 5:45 chegamos no Gillman’s Point, ou seja, estavamos na cratera mas faltava ainda chegar no topo mais alto dela, que estava do outro lado. Mais uma longa e lenta caminhada de 2 horas para conquistarmos o topo da África. Essa última puxada foi uma mistura de emoção, fadiga e gorfos de alguns do grupo. Circundar a cratera não é simplesmente uma caminhada, tínhamos que subir e descer os outros picos do perímetro da cratera. Mas com o nascer do sol pudemos finalmente ver tudo que estava ao nosso redor, as geleiras enormes, as nuvens, a cratera e o pico.  Tudo isso nos incentivou, e todos que subiram até a cratera conseguiram chegar até o topo. Como disse no começo, a altitude não permitia muito fôlego para meditação, só algumas fotos e iniciamos a descida, que foi para mim um dos melhores momentos. Conforme o oxigênio voltava a entrar na corrente sanguínea, todas as emoções das 8 horas anteriores até então embaralhadas começaram a tomar forma na minha mente. Havia conquistado o que há tanto sonhara, a respiração fluía e o corpo era preenchido com uma dose cavalar de adrenalina e orgulho.

Hora de descer.

Foi ainda melhor quando vi, à luz do dia, que aquele interminável zig-zag da subida formava, na descida, uma íngreme pista de ski na areia. Foi meio perigoso mas extremamente gratificante deslizar com o pé nas encostas da montanha. Com todo esse ski, a volta até a cabana demorou só 2 horas. Almoçamos na cabana, mas ainda nesse dia tínhamos que descer mais 3 horas até um outro ponto para passarmos a noite. Mas isso já não importava, com o sol a pino, o calor esquentando a pele e a sensação de missão cumprida, o prazer da vida enchia de vida os meus músculos.

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